Maratona das Praias 2009
Geral: 111ª Corrida 2009:
27ª Corrida
Data: 13/09/2009 –
8h04min (domingo)
Local: Forte de São
João, Praia da Enseada – Bertioga/SP
Distância: 42 Km (3ª) ![]()
Tempo: 5:17:31
(líquido) e 5:17:47 (bruto)
Velocidade Média: 7,94 Km/h (2,2 m/s) Passo: 7:34
(-24,24%)
Pontos
(Tabela Húngara):
48
Temperatura: sol entre nuvens, 28ºC ![]()
Valor da Inscrição: R$ 59,84 (R$ 55 + taxa de serviço Ativo.com)
Número de peito: 235
Tênis: Asics Gel Kushon prata/amarelo (5)
Colocações:
Geral: 157º (de 183) 85,79%
Masculino: 140º (de 162) 86,42%
Categoria 35-39 anos: 28º (de 28) 100%
Resultado na Web:
http://www.th5eventos.com.br/maratona/ResultadoMaratonadasPraias09.mht
Medalha: ![]()

Camiseta: poliéster
(Amphibia) ![]()

Foto:

Vídeo:
Relato:
Quando algo dá errado, a primeira coisa que se costuma fazer é tentar
descobrir o porquê. Ainda vou matutar
muito a respeito dessa minha terceira maratona, mas a primeira conclusão a que
chego é que eu estava sim preparado, e até relativamente bem, mas para uma
corrida normal, com grau de dificuldade médio, se é que uma distância de 42 Km
pode ser assim considerada. Essa, definitivamente, não seria. A maior preocupação, desde o começo, era o clima.
Ter feito praticamente todos os treinos com temperatura amena, com honrosas exceções nos finais de semana
sem provas dos últimos três meses; e chegar no dia D com um calor de arrebentar era o meu pior pesadelo. Ao sair
de São José no sábado depois do almoço, tudo indicava que seria assim,
inclusive os sites de previsão do tempo. Mas, durante a viagem, tudo mudou. O
tempo na serra embaçou e chegamos a
Bertioga sob garoa fina, inclusive. Não deu nem pra aproveitar a piscina do
Chalés Schina, onde ficamos hospedados.
Devidamente acomodados, fomos fazer a retirada do kit pré-prova, o que
transcorreu na maior tranquilidade, sem filas. Coloquei na urna meu cupom para
concorrer ao pacote para a Maratona da Disney sabendo que, pé-frio toda vida, jamais ganharia. E talvez fosse até melhor
assim, imagine arcar com as inevitáveis despesas pra levar a patota toda de casa também. A Janete
aproveitou o tempo livre para uma pescaria improvisada, com material comprado
na hora em uma loja ali perto. Não pegou peixe nenhum, mas deu pra tirar um lazer, enquanto eu descansava e
ficava olhando lá longe, a outra ponta da praia, que conhecia bem dos 25 Km
Interpraias de 2007, mas lembrando que
dessa vez ela seria pouco mais de um quarto do caminho.
A numeração confusa dos logradouros da Avenida Anchieta quase nos faz
desistir do jantar de massas oferecido pela organização no restaurante
Borghese, gratuito para os participantes e com taxa de R$ 10 para
acompanhantes. Mas valeu a pena procurar um pouco mais. Deu pra aproveitar bem
o buffet com três tipos de massa
(espaguete, talharim e penne) e três
tipos de molho (ao sugo, bolonhesa e branco). Bebidas à parte. Deu vontade de
acompanhar com um vinhozinho, mas acabei me contentando com suco de laranja
mesmo.
Aí era hora de descansar. O que não seria fácil, com os vizinhos de chalé
fazendo churrasco a dez metros da janela. Mas desabei assim mesmo. Sabe como é, terceira maratona. A expectativa
era grande, mas a ansiedade não era mais a mesma do estreante. O sono foi meio
entrecortado, mas, tendo ido deitar pouco depois das 22h, deu para descansar
legal. Às 6h, fui acordado por uma luz entrando pelas frestas. O sol não iria
faltar para a festa. Tomamos um café rápido e fomos direto para o local da
largada, arrumando um providencial lugar próximo para estacionar.
Corrida longe de casa é estranho. Ver aquele monte de gente e não
conhecer (quase) ninguém é algo cada vez mais atípico. A animação da galera faz
falta. Arrumamos, eu e a Janete, um banquinho próximo a uma das entradas do Parque
dos Tupiniquins e por ali ficamos, esperando a hora de partir para a batalha. Gente aquecendo, alongando e eu
ali, nem parecendo que ia correr. Tranquilo, resignado, já refazendo os planos
com a nova mudança brusca na temperatura.
Já próximo da hora prevista, vi de longe o Guilherme e fui
cumprimentá-lo. Fui surpreendido com a notícia de que ele resolvera,
incentivado por um amigo, correr os 42 Km também. Era seu plano inicial,
resumido pela metade com a dificuldade encontrada nos treinos preparativos.
Fiquei contente com a notícia, sempre acreditei que ele tinha tudo para
conseguir. Mas mal deu tempo de falar sobre o assunto. Sem qualquer aviso
prévio, soou a buzina e todo mundo já disparou pela areia. O pórtico estava
montado ali, mas a notícia divulgada na semana anterior é que os primeiros 2,5
Km seriam no asfalto, a exemplo da minha primeira prova na cidade, dois anos
antes. Foi só a conta de me despedir da Janete e, sem sequer uma foto da
largada, peguei o meu caminho.
Todo mundo que ouviu falar que eu ia fazer uma maratona correndo na areia
me chamou de doido pra baixo. Mas, pelo menos no primeiro trecho, o piso
lembrava mais terra batida. Menos impacto que no asfalto, mas sem chegar ao
ponto de afundar o pé. Menor desgaste nas articulações, mas, para compensar,
maior demanda da musculatura. A série de exercícios praticada na academia
durante os últimos meses era voltada para ganho de força muscular, ao invés de
resistência, como nas minhas duas maratonas anteriores. Propositalmente. Outra
característica da qual me lembrava bem da Interpraias era a presença dos
inúmeros riachinhos desaguando no mar. Na ida, todo mundo os saltava, para
evitar molhar os pés, encharcar tênis e meias e abrir a possibilidade de ganhar
umas belas bolhas. Na volta, o que era evitado passava a ser desejado, para
amainar o ferro em brasa que os pés se
tornavam depois de vários quilômetros. E tudo estava ali de novo. O calor já
era forte, mas a brisa lateral o amenizava um pouco. A sensação era muito
gostosa, de estar começando mais um desafio para o qual tanto tinha me
preparado.
O Guilherme, junto com seu amigo Luis, começou já em ritmo um pouco mais
forte. Pensei a princípio em acompanhar, mas achei pouco recomendável. Preferi
ficar mais para trás, na minha batida própria. A primeira placa, no mesmo
modelo pequeno e meio escondido da minha outra corrida por ali, apareceu
rapidamente. E pareceu colocada no lugar certo, passando com 6’10’’. Ritmo
confortável, com tendência de aumentar um pouco mais pra frente. Conversando durante
a semana com o Fabio Matheus sobre estratégia, disse que achava que a minha
seria tentar fechar cada parcial de 10 Km na casa de uma hora, deixando a
última e mais difícil para fazer com o gás que sobrasse. Restava saber se, com
aquela lua cheia, isso seria mesmo
viável. A segunda placa chegou ainda mais rápido, mas ainda dando impressão de
que a marcação talvez estivesse mais ou menos precisa. 5’42’’ foi o tempo nela.
Sem parecer ter aumentado muito o ritmo, entretanto. Era importante dosar a
empolgação, evitar um começo forte demais, porque a jornada seria longa.
Superestimar as próprias condições é caminho certo para o fracasso em qualquer
corrida, em particular nas de maior duração.
Por enquanto tudo era só alegria. A quantidade de participantes era bem
menor que nas minhas duas maratonas anteriores, mas, de qualquer maneira, a
sensação de correr em grupo era bastante agradável. Os ponteiros já tinham
desgarrado e sumiam no horizonte, mas a galera que saltava riachinhos junta era numerosa. O ritmo parecia constante,
mas a placa três, que custou a chegar, mostrou que não dava pra confiar
naqueles pequenos quadrados brancos jogados
no chão (o locutor pediu desculpas antecipadas se alguma sumisse, eventualmente
levada por algum rato de praia). O
ritmo certamente não tinha despencado para 6’36’’, mas foi isso que disse o
relógio. Dali pra frente, continuaria apertando o lap em todas as outras placas, mas desconfiado como todo bom
mineiro (só por parte de mãe, mas não deixo de ser).
A estrutura de hidratação seria um dos bons predicados desta prova. A
distribuição a cada três quilômetros, com dois postos adicionais de isotônico
ajudaria bastante aos corredores, ainda mais sob aquelas circunstâncias. O
primeiro posto de água chegou e por ali peguei apenas um copo. Ainda sem sede,
mas já com a pele começando a sofrer os efeitos do calor, tomei só um golinho e
usei o resto como ducha. Ali na
frente, escolhi ao acaso um corredor (um que usava uma bandana azul na cabeça) no
meio da multidão e defini que seria meu alvo.
Sem forçar e nem aumentar o ritmo, a ideia era ultrapassá-lo e, a partir disso,
escolher outro para o mesmo fim. Mas a missão seria inglória. Ele pareceu
apertar a passada e aumentou momentaneamente a distância. Abortei o plano,
deixei pra lá. A motivação viria de outras formas. Mas isso não significava que
não faria ultrapassagens. Embora recebesse algumas também, ia, mantendo a
passada, deixando vários corredores para trás. Ter largado de surpresa tinha me
deixado na rabeira da tropa, a
sensação de recuperar as posições perdidas era bacana, um incentivo a mais para
seguir em frente. O sol, só subindo e aumentando cada vez mais o calor. Não
havia termômetros à vista, mas a sensação térmica já beirava a dos trinta
graus.
As placas seguiam com tempos irregulares. 5’34’’ no Km 4 e 5’21’’ no 5.
Não tinha a percepção de estar correndo nestes paces. Tudo parecia ter bem mais cara de 6’. E isso meio que se
confirmou na chegada ao Km 7, com poucos segundos antes dos 42 minutos. Não tem
jeito, por mais que eu me esforce, não consigo evitar as projeções. Essa veio
quase automaticamente, e o número foi auspicioso: 4h12min. Não era o sonho de
consumo dos sub-4 horas, mas era uma marca magnífica para o momento. Sonhar com
ela não me custava. Os ponteiros da meia já voltavam, correndo forte à beça.
O próximo checkpoint importante
seria a passagem pela marca dos 10K. E ela veio dentro do previsto, três
segundinhos apenas para a hora completa. Em 2007 eu tinha chegado a essa placa
com 54’, mas os tempos eram outros e a distância prevista, idem. A pouca
presença de banhistas nos trechos da Enseada, SESC e Vista Linda tinha ficado
para trás. Ali, no Canto do Indaiá, a muvuca
era grande. Parte por gente curtindo a praia, outra por participantes e espectadores da prova
de travessia (faltou você lá, Wlad!). Saímos todos desviando da multidão e de
quem já voltava, como o Guilherme e o Hideaki; e chegamos ao final da praia,
onde estava a tenda do posto de isotônico. Veio só um fundinho de copo, mas como
caiu bem. Depois de chegarmos ao paredão do fim da praia, pegamos o caminho de
volta, mas só um pequeno trecho dele. O staff
orientava e a fita em amarelo e preto sinalizava o desvio à direita para deixar
o Indaiá. Breve mudança de piso. Da areia para a terra. Aliás, terra só não, algum
barro também. Caminho, todo irregular, para a Riviera de São Lourenço, segundo
trecho da prova.
Eu já tinha notado isso um pouco ali atrás, mas só na chegada a essa
segunda parte da corrida a coisa se manifestou mais claramente. Bateu um
cansaço prematuro e preocupante. E, pior, sem motivo aparente. Não tinha sido
por conta de exageros no começo, noite mal dormida e nem outra coisa assim, mais
óbvia. Mesmo o calor parecia que tinha diminuído um pouco, com o sol se
escondendo (brevemente) por detrás de algumas poucas nuvens. Mas o fato é que a
primeira caminhada veio cedo, muito cedo. Da passagem pelo riozinho, ainda em
maré baixa (na metade da canela, segundo o staff),
até a barreira de pedras, que o “tkz”, forista Runner Brasil, tinha avisado
existir. Passamos por uma fenda no meio dela. E dali pra frente voltei a
correr. Mas com uma luzinha amarela
piscante na cabeça. Tinham se passado apenas 13 Km e 1h19min de prova.
E o alerta não era mesmo falso. A retomada na corrida foi breve, durou
apenas mais um quilômetro. O ritmo de 6’37’’ no quilômetro quatorze, apesar das
placas aparentemente jogadas ao acaso no percurso, pareceu agora mais
verossímil. E antecedeu um trecho dessa vez bem mais longo andando. Com mil
metros, menos ou mais, o fato é que o décimo quinto quilômetro durou dez
intermináveis minutos. O sol tinha voltado com força. A respiração estava
ofegante, mesmo aparentemente sem forçar. Já tinha aberto o primeiro gel no Km
9, agora usaria as duas primeiras pastilhas salgadas anti-cãibras, que estreara na Maratona
de SP. Passando pelos belos prédios do condomínio chique, gritei baixinho um chega! Tinha ralado muito para estar ali
e não ia desistir por causa de qualquer coisinha. A corrida naquele ponto tinha
mais pinta de trotinho, mas de passeio, não...
Na Interpraias eu havia conhecido apenas um pequeno trecho da praia de
São Lourenço. Só hoje é que seria apresentado de verdade a ela. E, apesar da
beleza natural e arquitetônica do cenário, o chão não ajudava nem um pouco. Não
era a mesma areia dura da Enseada e suas continuações com outras denominações.
Não chegava a ser uma areia fofa também, mas a diferença era evidente, a
exigência com a musculatura, por conseguinte, bem maior. Os espaços entre os
corredores já eram grandes, só dava pra ver gente bem lá na frente ou, de vez
em quando, vinda de trás e ultrapassando. Para ganhar posições, só se alguém
começasse a andar. Foi o caso do corredor que eu escolhera como coelho. Mal
passei por ele, no entanto, e já voltou a correr, tornando a abrir distância. A
marcação estava tão bagunçada que teve até pace
de prova de 5 Km: 4’24’’ no Km 17. Seria ótimo, se verdadeiro. E se não
precedesse uma nova parcial horrorosa, mesclada com outra breve caminhada:
8’42’’ no Km 18. Chegamos ao final da Riviera e pegamos outra curta estradinha
de terra para o acesso ao terceiro trecho da prova. No caminho, uma parada para
uma hidratação mais caprichada. O morador (ou veranista) botou uma mesinha do lado de fora de casa, encheu jarras
com água geladinha e oferecia aos corredores. Tomei dois copões bem servidos, agradeci,
expliquei o percurso e comentei com ele o quanto gostaria que a temperatura
estivesse igual ao do dia anterior. Simbora pra Itaguaré!
Quando li e também quando o locutor da prova falou sobre essa praia,
imaginei um paraíso ecológico. Bonita, e muito, era mesmo. Mas longe de ser
deserta e impoluta. Muita gente por ali, principalmente surfistas. E muito
lixo, infelizmente, espalhado pelo chão. Vários copinhos vazios largados pelos
corredores, mas muito pacote de biscoito e salgadinho, entre outras coisas
também. E, se eu tinha achado a areia anterior pouco firme, essa então, era bem
pior. O Dimas passou por mim e mandou um “vamos, Namiuti!” e, segundos depois,
eu tive que fazer uma nova parada, porque tinha mais areia do lado de dentro do
tênis que fora. Tinha formado dois montinhos, um em cada pé, que cutucavam a
sola, provocando uma sensação incômoda, que mais pra frente se transformaria em
dor. Morrendo de medo de arrumar uma cãibra, tirei os tênis e removi o que pude.
Aproveitei também para tirar a camiseta, pra ver se melhorava a sensação de
abafamento. Prejuízo grande nessa operação, com parcial na casa dos 9’. Mas
pareceu ter resolvido. Sem sujeira e menos acalorado, voltei mais uma vez a
correr, com ritmo bem mais fraco que o do começo, mas pelo menos começando com
seis. Tive uma sensação breve, mas muito estranha: as pernas pareciam correr
sozinhas, independente da minha vontade e controle. Triste era ver que os planos iniciais
tinham ido por água abaixo, e muito: a chegada aos 20 Km já superava em doze
minutos as duas horas. A matemática passava a ser inimiga mortal do corredor.
O Hideaki, que mesmo com um molho uruguaio suspeitíssimo no jantar da véspera, tinha feito seu
primeiro sub-4h em Punta del Este no domingo anterior (parabéns!), já vinha
voltando novamente. E o Guilherme também. Dizendo que o retorno ainda estava
meio longe, ofereceu um copo d’água, que aceitei prontamente. O rio Itaguaré,
marca da metade da prova, apareceu e, confesso, deu vontade de por ali mesmo
ficar. Com as 2h19min, a projeção era, ainda muito cedo, de altas 4h38min.
Ainda seria um bom tempo, minha melhor marca por quase dez minutos. Mas a
disposição para voltar tudo aquilo, com o agravante do ritmo ter simplesmente
despencado em relação ao início, era pouca. Três meses de treinos, que tinham
me deixado bastante esperançoso em fazer uma grande prova, pareciam escapar por
entre os dedos, sem que eu conseguisse fazer qualquer coisa para segurar.
Sensação ruim, de impotência diante da situação difícil.
De tanto alternar posições, eu, o corredor do lenço azul e outro
veterano, usando shorts amarelo, acabamos por passar a conversar a cada
encontro. Incentivos para não parar, para transformar caminhada em trote,
brincadeiras para não deixar a motivação cair. Mas não estava nada fácil. A
temperatura parecia subir cada vez mais, tornando a antes cômoda distância de 3 Km a
cada posto de água uma enormidade. A areia, movediça,
afundando a cada pisada e voltando a invadir o interior dos tênis. A placa do
Km 25 aparecendo antes da do Km 24 e confundindo ainda mais o controle. A
ausência de um staff para dizer qual era o caminho certo para deixar Itaguaré. Até
mesmo a inusitada visão de uma grande tartaruga marinha morta, logo ali na
areia (ela estava ali na ida?). Tudo parecia conspirar para o péssimo momento
psicológico. Ao voltar para a Riviera, tomei uma decisão: ia abandonar a
corrida. Não sentia cansaço ou dores, mas, bloqueado, simplesmente não estava
mais conseguindo correr. Três quilômetros seguidos com tempos medonhos, entre 8’
e 11’. Parei em um orelhão e resolvi ligar para a Janete para avisá-la disso. Chateado,
pedi desculpas por decepcioná-la. Ela não me cobrou absolutamente nada, pareceu
entender e apoiar os meus motivos, apesar de saber o quanto era importante pra
mim terminar essa corrida. Ofereceu para conseguir um táxi para ir me buscar, o
que recusei, dizendo que daria um jeito de voltar. Mas que jeito seria esse?
Não tinha simplesmente ninguém a quem pedir ajuda. Os únicos carros ali eram do
pessoal que estava na praia. Nem tentei, mas duvido muito que sensibilizaria
alguém, na maior parte, gente com pinta de cara
cheia. Não sabia a que distância exatamente estava a estrada (depois veria
no mapa que eram 2 Km em linha reta), mas dava o maior medo de ser longe à beça
ou me perder no caminho. Além de não ter também um tostão no bolso. Sem
alternativa, resolvi seguir adiante. Ainda disposto a não terminar a prova,
talvez só trotar e andar pela Riviera até chegar de volta ao Indaiá, onde
imaginei ser mais fácil conseguir um reboque.
Como já tinha acontecido no Rio e em São Paulo, as caminhadas tinham
mantido o lado cardiorrespiratório bem preservado. Tinha hora que até parecia
que dava pra correr, como no novamente ilusório quilômetro com parcial de
4’21’’. Mas, logo vinham choques de realidade, com novas parciais altíssimas e
desanimadoras. A segunda passagem pela Riviera pareceu interminável, a praia
parecia que não acabava nunca mais. Eu tinha até esquecido da barreira de
pedras e achei que tinha perdido a saída. Estava meio desnorteado. Demorou uma
eternidade, mas finalmente ela apareceu. E o riozinho da ida já tinha subido bastante. Da canela, a água chegava agora à cintura.
O casal de corredores que passou por mim ali ainda brincou que era proibido nadar. Desclassificação
para quem tentasse? De maratona, a prova tinha virado um duathlon.
Quando eu corria, até o fazia mais ou menos bem. Mas a cada hora aparecia
um incômodo diferente. A travessia
tinha enchido novamente os meus tênis de areia. E agora, com os pés mais
sensíveis pelo esforço, não só atrapalhava como também doía. Pensei até em
tentar correr descalço, mas achei que pioraria ainda mais as coisas. Cada vez
que os montinhos batiam na sola do pé,
eu via estrelas. Deixamos as ruazinhas sinuosas entre São Lourenço e Indaiá e
voltamos à primeira praia do trajeto. Pedir carona pra voltar? Eu tinha
desistido disso ali atrás, quando pedi ajuda para o staff de bike e ele perguntou, tirando sarro, se eu queria ir
sentado no guidão. Eram ainda doze quilômetros pra chegar, mas não me restava
alternativa senão percorrê-los, custasse o que custasse.
Reencontrei novamente o Guilherme no mesmo trecho do grampo, dessa vez
andando e já sem a companhia do Luis. Ele voltava, enquanto eu ainda seguia no
sentido inverso, rumo a uma segunda passagem pela tenda do isotônico. Dessa vez
não seria só o restinho. Parei, peguei um copo cheio e geladíssimo, bebi. E
enchi outro. Perdi um bocado de tempo por ali, mas ganhei um bocado de
disposição adicional. Deu até pra vislumbrar uma volta em trote, sem mais
nenhuma caminhada até o final. Só faltava combinar isso com o corpo, que já
dava sinais de desgaste na zona do urso
caronista. Chegou um ponto em que a dor na sola foi tão intensa que eu tive
que parar. Sentei no chão, tirei os tênis, joguei fora o excesso de areia. O
alívio era grande, mas só durava até a primeira onda me alcançar e ensopar tudo
de novo. A maré alta, segundo o locutor no começo da prova, só nos deixaria
usar a “raia 1” na ida. Na volta, era pela “raia 4”, e olhe lá... Outra coisa
que ficava bem mais visível agora na volta era o esgoto. Em alguns trechos,
banhistas eram premiados com ondas
marrons. Um corredor, a Janete me diria depois, disse brincando que no kit
deveriam vir desinfetante e antibióticos.
A molecada, ali pelo Km 33, pareceu que estava incentivando, pra logo
depois perguntar se eu ia dividir o
prêmio. No dia em que eles fizerem uma maratona, talvez entendam. Dali até
o final, que dava pra ver lá longe (e, como em 2007, parecendo não chegar perto
nunca, por mais que se corresse), seria um esquema de tentar correr 2 Km sem
parar e andar um pra descansar. Mas, àquela altura, mesmo o quilômetro corrido
era com tempo bem alto, acima dos 7’, quase beirando os 8’. E o andando,
dependia da distância das placas lançadas ao acaso pelo caminho. Teve uns feitos em 9’,
mas teve até um (o 37) com 15’30’’ (!).
Os dois corredores já tinham se tornado definitivamente meus companheiros
de percurso. Oferecíamos o que estava ao alcance uns aos outros. No meu caso,
gel; no deles, água e até refrigerante. Fiquei com a maior vontade de aceitar a
Coca, mas tive medo de misturar com a pastilha de sal e dar revertério,
pra terminar de ferrar com tudo. Tinha hora em que eles ultrapassavam, sumiam
na frente e parecia que não íamos mais nos encontrar. Mas logo ali na frente
voltavam a andar, como eu, sem conseguir manter nem um trotezinho básico
contínuo.
A Janete tinha me feito um pedido na noite anterior, durante o jantar.
Que eu me lembrasse dela nos 5 Km finais, do esforço que ela fazia para me
acompanhar em tantas corridas, mesmo sem participar delas. Quantos são os
cônjuges de corredores(as) que dão esse apoio incondicional? O que a gente vê
por aí, muitas vezes, são pessoas que ignoram ou até são contra esse “negócio
de corrida”. Não conseguiria ter o final de prova que ela merecia como
homenagem por tudo que já fez e que continua fazendo por mim. Mas dedicaria a
ela a conclusão dessa prova dificílima. Era algo que eu devia a ela, como
também a mim mesmo.
As projeções de resultado iam ficando cada vez mais altas. As cinco
horas, que eu imaginava como desastre total e que quase me fizeram desistir,
ainda no começo do retorno, já seriam lucro àquela altura. Os meus tempos ruins
de Rio e SP, então, quase recordes mundiais. O forte, local da largada, já
começava a ganhar contornos mais nítidos, mas ainda parecia bem distante. Ao
chegar no último posto de hidratação, no Km 39, pensei em abrir um quinto e
último sachê de gel, mas o que tinha no bolso era sabor banana ou baunilha.
Embrulharam o estômago. Terminaria sem eles. A água já era quente, a cara dos staffs era de quem estava louco pra ir
embora almoçar. Eu também...
Finalmente apareceu uma placa começando com quatro. Agora faltava muito
pouco pra andar, decidi que ia fechar a prova correndo. Só rateei um pouco ao
passar por um riachinho e encharcar pela milionésima vez o tênis. Aí, resolvi
tirá-lo de uma vez por todas. Fiquei só de meias, andei alguns metros e
resolvi, só de brincadeira, encarar um trotinho assim mesmo. E não é que a
sensação era bem gostosa? Nem mesmo o vento contra, requinte de crueldade da mãe-natureza,
tirou esse gostinho do final da prova. O tênis ficou bem melhor na mão do que
no pé. O corredor do lenço azul, parceiro de praticamente todo o percurso me
chamou e fomos para a reta final (aliás, reta não, foi uma curva final) juntos.
Ele disse que estava fazendo simplesmente a sua vigésima oitava maratona e que,
tirando a das Águas (Foz ou de Lindóia?), essa era a mais difícil que ele já fizera. Dá pra
questionar alguém com tanta bagagem?
O sorriso da Janete ao me avistar, primeiro de longe, depois cruzando o
pórtico, valeu todo o esforço. Abracei e agradeci ao colega pela força. E não
consegui segurar as lágrimas ao reencontrar minha companheira de sempre. A
frustração era grande, ao terminar a prova com inacreditáveis 5h17min, meia
hora a mais que em São Paulo. Mas não era maior que o orgulho por não ter
desistido. Por contusão, total exaustão ou ainda se me sentisse mal, é claro
que eu abandonaria a prova, sem nenhum problema. Mas ser derrotado pela cabeça
seria algo devastador e isso pelo menos, consegui evitar. Peguei o kit, que
tinha apenas frutas e uma barrinha de cereal e tomei mais dois bons copos de
isotônico. A medalha chamou a atenção pela beleza, fiz questão de colocá-la no
pescoço e tirar fotos com ela.
O Guilherme nos ligou para saber das notícias e fomos juntos almoçar. Parabenizei merecidamente o amigo pela estreia nos 42 Km
(e uns quebrados, GPSs acusaram até 700 metros) e pela loucura, no bom sentido da palavra. Vencido o tabu, estou certo de que
ele vai dar continuidade à bela trajetória que vem tendo nas provas. Você vai longe, cara!
Palavras feias como vergonha e fracasso rondaram a minha cabeça durante a
viagem de volta e todo o restante do dia. Mas a coisa não é bem assim. Tudo o
que ouvi e li posteriormente corrobora a minha percepção da dificuldade muito
acima do esperado desta prova. Sigo achando que maratona não é coisa pra mim e
que insisto apenas porque sou cabeça-dura demais. Mas vou continuar tentando.
Quando, ainda não sei, mas um dia, prometo, ainda vou fazer uma maratona
bem-feita. De preferência, uma bem menos insana
que essa de hoje. Deixem-me descansar, curar as dores, juntar os caquinhos e,
daqui até o final do ano, simplesmente me divertir e fazer o que der na telha
em relação às corridas. Mas as maratonas ainda vão ouvir falar bem de mim. Muito obrigado a todos que acompanharam, via Twitter ou de
perto, a minha preparação; e que torceram por mim.
Percurso:

Gostei:
![]()
da distribuição de água e isotônico, do cenário, de desistir de ter
desistido, da medalha
Não
gostei: ![]()
da largada-surpresa, da marcação de quilometragem pra lá de confusa, da
areia fofa
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
Média: 4,37
Links sobre a prova: http://picasaweb.google.com.br/GentiliSports/MaratonaDeBertioga#
Comentários no Fórum
Runner Brasil: http://www.forumnow.com.br/vip/mensagens.asp?forum=88968&grupo=217825&topico=3005519&nrpag=1
Viagem:
Veja também:
- Inscrição: 5 (internet, cartão)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (bem tranquila)
- Acesso: 5 (estacionamento fácil e próximo)
- Largada: 4 (pequeno atraso, sem aviso prévio)
- Hidratação: 5 (postos suficientes, bem distribuídos; água gelada pelo menos na ida)
- Percurso: 4 (bonitos cenários, mas a dificuldade adicional da areia fofa prejudicou bastante, além da travessia de riachos)
- Sinalização: 2 (placas distribuídas sem critério e até fora de ordem)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problemas, mas teve corredor trombando com pequenos banhistas)
- Participação do público: 4 (muito mais curtindo praia, mas teve quem apoiasse)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (tranquila)
- Qualidade do kit pós-prova: 3,5 (meio fraco para uma prova tão longa)
- Camiseta: 4 (meio apagada, mas pelo menos fugiu da tradição do branco)
- Medalha: 5 (muito bonita e com data do evento; não vi a da meia para saber se é diferente)
- Divulgação dos resultados: 4 (dia seguinte, tempo bruto)
http://www.webrun.com.br/maratona/conteudo/noticias/index/id/10060
124 Km, 1 pedágio (volta, Dutra/Jacareí
BR-116 (Dutra) até Jacareí
SP-066 (Henrique Eroles) até Mogi das Cruzes
SP-098 (Dom Paulo Rolim Loureiro)/SP-055 (Manoel Hipólito do Rego)
O relato do Guilherme
O relato do Leandro Stipanich
PUBLICIDADE